A Restauração dos Anussim – Judeus forçados à conversão na época da inquisição – e o Corpo do Messias

Atualizado em: 1 de julho de 2026Por

Há uma frase de Don Isaac Abarbanel (o grande sábio judeu/português que pessoalmente testemunhou a expulsão dos judeus da Espanha em 1492), onde ele descreve os descendentes dos judeus forçados à conversão. Comentando sobre o profeta Ezequiel, ele escreve: “Nos fins dos dias, o Eterno despertará nos corações dos Anussim o desejo de voltar… e quando voltarem ao D-us de Israel e o seguirem, cada um segundo sua condição e capacidade, Ele promete que os aproximará de Si.” Abarbanel escrevia isso em plena tragédia, exilado, vendo seu povo dispersado pelos quatro cantos do mundo mediterrâneo, e ainda assim afirmava com certeza profética que o Eterno não havia terminado de escrever essa história. Quinhentos anos depois, estamos testemunhando o cumprimento dessas palavras. A pergunta que se coloca diante do Corpo do Mashiach é se compreendemos a dimensão do que está acontecendo diante dos nossos olhos, ou se continuaremos tratando o retorno dos Bnei Anussim como uma questão meramente genealógica, cultural ou histórica.

Para compreender por que a restauração dos Anussim importa profeticamente (e não apenas historicamente), precisamos primeiro entrar na história com o respeito e a sobriedade que ela exige, porque não se pode falar do retorno sem antes compreender o exílio. Em 1391, ondas de violência antissemita varreram as principais cidades da Espanha — Sevilha, Córdoba, Toledo, Valência — e dezenas de milhares de judeus foram colocados diante de uma escolha impossível: o batismo ou a morte. A maioria escolheu o batismo, não por convicção, mas porque a alternativa era assistir ao massacre dos próprios filhos. Um século depois, em 1492, quando Fernando e Isabel assinaram o decreto que expulsava todos os judeus remanescentes da Espanha, aproximadamente duzentos mil deixaram para sempre a terra que habitavam há mais de mil anos — aquela que os sábios medievais chamavam de Sefarad — levando consigo as chaves das casas que imaginavam um dia recuperar. Os 100.000 judeus que cruzaram a fronteira para Portugal encontraram apenas cinco anos de liberdade: em 1497, o rei Dom Manuel I, pressionado pelo casamento com a princesa espanhola Isabel, mandou fechar os portos e forçar o batismo coletivo de toda a comunidade judaica portuguesa em um único dia. Não houve escolha, não houve tempo para deliberar — homens, mulheres e crianças foram arrastados para as pias batismais, e uma comunidade inteira foi declarada “cristã” por decreto real. Esses são os Anussim — os “forçados”, como a tradição judaica os denomina, ou também chamado de “cristãos-novos”. É exatamente sobre os seus descendentes que estamos falando quando nos referimos aos Bnei Anussim das Américas.

Esses descendentes de Judá espalharam-se pelo Brasil, pelo México, pelo Peru, pela Colômbia, pela Argentina, pelo Caribe — muitos deles como colonizadores, outros como comerciantes, todos carregando uma identidade dupla que era ao mesmo tempo sua maior riqueza e seu maior perigo. A Inquisição os perseguiu até as colônias: tribunais inquisitoriais foram instalados em Lima em 1569, na Cidade do México em 1570, e os tentáculos de Lisboa chegavam ao Brasil em 1591, de onde prisioneiros eram extraditados para serem julgados e, muitas vezes, queimados em Lisboa. E ainda assim, gerações e gerações de famílias continuaram acendendo velas na sexta-feira à noite sem saber muito bem por quê, continuaram evitando carne de porco como uma aversão inexplicável, continuaram guardando luto por sete dias, continuaram casando entre parentes próximos, continuaram entoando bênçãos em uma língua que já não entendiam. Isso é o que os sábios de Israel chamam de Memória do Sinai: algo gravado na alma de todo filho de Israel que nenhuma inquisição, decreto ou assimilação forçada foram capaz de apagar completamente. Esse conceito inspira-se no texto bíblico de Deuteronômio 29:15, onde Deus afirma que a aliança com Israel no Sinai iria além do contingente aos pés do monte: “Não é somente convosco que faço esta aliança e este juramento, porém com aquele que, hoje, aqui, está conosco perante o Senhor, nosso Deus, e também com aquele que não está aqui, hoje, conosco” (Dt 29:15). Como disse o ex-presidente de Israel, Isaac Navon, ao comentar sobre os descendentes de judeus da inquisição: “Não se pode expulsar a memória de um povo”.

E é exatamente aqui que o profeta Obadias, em um versículo que durante séculos pareceu enigmático, declara o anseio profético da restauração de Israel: “Os exilados de Jerusalém que estão em Sefarad possuirão as cidades do Neguév.” (Ob 1:20). Sefarad é o nome que damos em hebraico para Espanha. Os exilados de Jerusalém que estão em Sefarad são, literalmente, os descendentes daqueles judeus que foram expulsos — os Bnei Anussim que hoje habitam as cidades do Brasil, da América Latina e dos Estados Unidos. O profeta não estava falando de uma abstração espiritual: estava apontando para pessoas reais, com sobrenomes reais — Guimarães, Morais, Pereira, Rodrigues, Ferreira, Almeida, Mendes, Cardoso, etc., muitos dos quais ainda hoje carregam no sangue e na alma o sussurro de uma herança que foi silenciada pela força, mas nunca extinta. Historiadores afirmam que o Brasil possui hoje o maior contingente do mundo de descendentes de Judeus do período da inquisição, algo entre 10 a 15% de sua população (*). E o profeta diz que essas pessoas possuirão — não somente recordarão, não somente lamentarão, mas possuirão, no sentido de herança, de restituição, de retorno pleno ao que lhes foi roubado.

Mas o que significa esse retorno no contexto do grande plano profético do Eterno para Israel e para o mundo? Qual seria a relevância desse fenômeno social para a Igreja? É aqui que precisamos ler as Escrituras com olhos abertos, porque o que está em jogo não é apenas a restauração de uma identidade étnica ou a reparação de uma injustiça histórica. O que está em jogo é o cumprimento de um plano redentor que o Eterno traçou desde Gênesis 12 e que os profetas anunciaram com clareza: a restauração de Israel como o pré-requisito para a bênção das nações, para o retorno do Messias e para a restauração de toda a criação.

Paulo articulou isso de forma que deveria causar tremor em todo pregador do evangelho que já leu Romanos capítulo 11 com honestidade: “Pois, se a rejeição deles (em relação à Cristo) trouxe reconciliação ao mundo, que será o seu restabelecimento, senão vida dentre os mortos?” (Rm 11:15). A rejeição parcial de Israel em relação à Cristo abriu as portas do evangelho para as nações, e isso desde então tem produzido a reconciliação do mundo com Deus (uma cura ao distanciamento da humanidade relatado em Gênesis capítulo 11). Mas o restabelecimento de Israel, sua restauração plena, produzirá algo ainda mais extraordinário: vida dentre os mortos! Ou seja, aquilo que as nações experimentaram através da rejeição parcial de Israel será multiplicado de forma inimaginável quando Israel for plenamente restaurado. E dois versículos depois, Paulo confirma: “e assim todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, e desviará de Jacó as impiedades.” (Rm 11:26). Ao citar Isaías, Paulo afirma que Yeshua (Jesus) é aquele que restaurará Israel no final dos tempos, uma restauração que não envolve apenas o retorno físico, mas o reconhecimento coletivo de Yeshua como Messias, filho de David. O apóstolo, o fariseu filho de fariseus, o judeu messiânico que sofreu mais por Israel do que qualquer outro servo de sua geração, não conseguia separar o evangelho das nações da salvação de Israel. Ambos fazem parte de um único e indivisível propósito de Deus.

E o próprio Yeshua, na última vez que se sentou sobre Jerusalém antes de ser entregue, chorou — e então disse palavras que são ao mesmo tempo uma profecia e uma condição: “Eis que a vossa casa vos é deixada deserta; porque eu vos digo que não me vereis mais até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor.” (Mt 23:38-39). Ao citar o Salmo 118, Yeshua está dizendo que o Seu retorno está vinculado ao reconhecimento de Israel, ao dia em que o povo judeu o coroar como Rei proclamando Baruch Há Bá beShem Adonai (Bendito o que vem em nome do Senhor). O retorno do Mashiach não é um evento que acontece apesar de Israel, ou independente de Israel. Ele acontece através de Israel, quando Israel reconhecer o Messias que aguarda. E se isso é verdade, então tudo o que contribui para a restauração de Israel, o retorno física à Terra de Israel, o despertar espiritual, o retorno dos dispersos à sua identidade de aliança, é também um passo em direção ao retorno de Yeshua e à restauração de toda a criação.

Os Anussim estão dentro desse cenário. Não como os únicos, não como a totalidade da restauração de Israel (que é muito mais ampla e inclui dimensões que ainda aguardamos), mas como um sinal profético real de que o Eterno está movendo Sua mão na direção que os profetas prometeram. Quando vejo dezenas de comunidades nas Américas redescobrindo sua herança sefardita, quando ouço o testemunho de famílias que por gerações guardaram práticas judaicas sem saber nomear o que estavam fazendo, quando recebo no Ministério Ensinando de Sião pessoas de sobrenomes portugueses que chegam com o coração ardendo sem entender de onde vem esse ardor, estou vendo Ezequiel 37 acontecer diante dos meus olhos. “Profetiza sobre estes ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor […] E o Espírito entrou neles, e viveram, e puseram-se em pé.” (Ez 37:4,10). Isso não é metáfora. É literalmente o que está acontecendo com famílias que estavam mortas em relação à sua identidade judaica por quinze gerações e que estão, neste momento, acordando para quem são.

Precisamos igualmente ser cuidadosos e teologicamente precisos neste ponto: os Anussim são, em sua esmagadora maioria, descendentes das comunidades judaicas provenientes de Judá. Ou seja, eles não representam Efraim disperso pela Assíria no séc. VIII a.C., nem são as “dez tribos perdidas de Israel.” A dispersão de Efraim é um evento muito anterior, de alcance profético escatológico ainda mais amplo, cujo cumprimento pleno pertence aos últimos dias de uma forma que ainda não vimos completamente. Os Anussim têm uma história própria, recente no contexto bíblico (cinco séculos de exílio forçado), e sua restauração, embora ressoe seguindo os padrões proféticos da restauração de Efraim, deve ser entendida em seus próprios termos históricos e teológicos. As profecias de Ezequiel 37 e Isaías 11 nos fornecem um paradigma — um modelo de como D-us restaura o que foi disperso —, mas não uma aplicação direta e literal que identifique os Anussim com Efraim. O que podemos afirmar, e somos embasados nas Escrituras, é que o retorno dos Bnei Anussim à sua identidade e à fé em Yeshua, o  Mashiach de Israel, é parte do grande movimento de restauração que os profetas prometeram para os filhos de Israel nos últimos dias.

Nesse sentido, a Parábola do Filho Pródigo que Yeshua conta em Lucas 15 não é apenas uma lição de moral individual sobre arrependimento. É o drama profético da restauração de Israel narrado em linguagem de família. O filho mais novo que leva sua herança para longe, que a perde em terra distante, que um dia “cai em si” e resolve retornar é o retrato de todo filho de Israel disperso pela violência da história mas que hoje ouve um chamado que não consegue explicar racionalmente, mas que ressoa no mais fundo da alma. E o pai que o vê ainda de longe e corre ao seu encontro — antes que o filho termine o discurso, antes que apresente credenciais, antes que prove sua identidade — é a imagem mais fiel que o próprio Yeshua nos deu do coração do Eterno em relação aos Seus filhos que retornam.

E isso nos traz ao chamado concreto que esta hora profética tem repercussões diretas para a Igreja: tanto aos judeus messiânicos quanto aos gentios enxertados na oliveira de Israel. Se Paulo estava certo ao escrever que o restabelecimento de Israel produzirá vida dentre os mortos para o mundo inteiro, e se Yeshua estava certo ao vincular o Seu retorno ao reconhecimento de Israel, então trabalhar pela restauração dos filhos de Israel que retornam em Yeshua, acolher os Bnei Anussim em sua jornada de retorno à aliança de seus pais e à fé no Mashiach, construir pontes educacionais e congregacionais que os ajudem a entender quem são e o que significa viver como filhos de Abraão em Isaque dentro do contexto da Nova Aliança, tudo isso não é um ministério secundário ou especializado. É participar diretamente do cumprimento das profecias que antecederão o retorno de Yeshua e a restauração de toda a criação.

O Eterno está chamando de Sefarad. Os ossos secos estão recebendo vida. A pergunta que resta — e que cada congregação, cada líder, cada discípulo de Yeshua precisa responder — é se estaremos entre os que compreendem o tempo em que vivemos e agem em consonância com os propósitos do Eterno, ou se deixaremos passar diante dos nossos olhos um dos sinais mais claros de que a grande restauração está em curso, sem nos movermos, sem celebrarmos, sem corrermos ao encontro daquele que ainda está longe, mas que já ouve o chamado do lar. O Eterno está nos dando a oportunidade de sermos seus parceiros no processo de restauração de Israel e no processo de redenção do mundo. A restauração virá, mesmo se cruzarmos os braços. Mas a chance que temos de sermos abençoados por esse processo passará de nós. Como afirmou Mordechai à sua prima Ester: “Porque, se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento, mas tu e a casa de teu pai perecereis;” (Et 4:14).

Quem sabe não estamos vivos nessa geração, nessa época em meios aos acontecimentos do presente, para sermos agentes da restauração, da redenção, arautos da verdade, unidos a Israel lutando contra o antissemitismo político e teológico que “assombra” o corpo de Cristo por milênios? Quem sabe o Eterno não está nos dando essa chance pois sabe que precisamos urgentemente da bênção que essa participação trará para as nossas comunidades? O mundo está cada vez mais inimigo de Deus, inimigo de Suas escolhas, de Suas promessas, de Sua Lei e Justiça. Vamos nos calar na esperança de “escaparmos” do mundo, ou vamos fazer nossa luz brilhar em meio às trevas? Seremos espectadores do caos e do pecado ou seremos arautos da justiça e da esperança? Eis que Deus coloca diante do Seu povo a oportunidade de agir. Nossa resposta determinará o nosso futuro.

Deus não se esqueceu de Seus filhos em Sefarad. E a Igreja de Cristo, os santos alcançados pelas promessas dadas a Israel, não pode negligenciar seu papel junto à restauração de Israel:

“Pois, se foste cortado da que, por natureza, era oliveira brava e, contra a natureza, enxertado em boa oliveira, quanto mais não serão enxertados na sua própria oliveira aqueles que são ramos naturais! (…) Quanto ao evangelho, são eles inimigos por vossa causa; quanto, porém, à eleição, amados por causa dos patriarcas; porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis. Porque assim como vós também, outrora, fostes desobedientes a Deus, mas, agora, alcançastes misericórdia, à vista da desobediência deles, assim também estes, agora, foram desobedientes, para que, igualmente, eles alcancem misericórdia, à vista da que vos foi concedida.” (Rm 11:24, 28-31)

Rumo a Restauração de todas as coisas.

(*) O rabino messiânico Marcelo Miranda Guimarães, fundador do Ministério Ensinando de Sião, fundou em agosto de 2000 a ABRADJIN – Associação Brasileira dos Descendentes de Judeus da Inquisição. Em 2012, a ABRADJIN inaugura o 1° Museu da História da Inquisição do Brasil. Com um acervo histórico e literário único e dezenas de relíquias dos judeus sefaraditas que saíram da Espanha e Portugal, o Museu da História da Inquisição tem impactado o mundo acadêmico trazendo ao conhecimento da sociedade a grande contribuição dos Judeus portugueses no processo de colonização do Brasil. Para saber mais e ter a oportunidade de contribuir com essa causa, acesse o site: https://museudainquisicao.org.br 

Sobre o autor: Matheus Zandona Guimarães é descendente de judeus italianos e portugueses que imigraram para o Brasil no início do século XX. É bacharel em Comunicação Social, estudou hebraico e cultura judaica em Israel e é Mestre em Teologia com ênfase em Estudos Judaico-Messiânicos pela The King’s University – EUA. É cofundador do primeiro Museu da História da Inquisição no Brasil e rabino sênior da Congregação Judaico-Messiânica Har Tzion, em Belo Horizonte, Brasil. Matheus foi ordenado rabino messiânico pela Union of Messianic Jewish Congregations — UMJC, EUA — e pelo Netivyah Bible Instruction Ministry, em Israel. Ele atua como Diretor Regional da UMJC para comunidades de língua espanhola e portuguesa, bem como Diretor Internacional da Netivyah International USA. É o atual presidente do Ministério Ensinando de Sião – Brasil.

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